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Consciência Negra: a jornalista Gabriela Willer usa o Instagram para mostrar como o racismo também atinge as realçõs afetivas
Consciência Negra: a jornalista Gabriela Willer usa o Instagram para mostrar como o racismo também atinge as realçõs afetivas
Gabriela Willer começou a falar sobre os seus relacionamentos na internet em tom de brincadeira. No entanto, começou a perceber que os problemas que enfrentava em cada relação eram bem parecidos. Com isso, começou a identificar com o racismo também influenciava suas relações afetivas e prejudicava sua autoestima.

Para quem não é negro, é um pouco complicado perceber a forma "sútil" que o racismo age. Todo mundo sabe identificar um caso racista quando, por exemplo, a Ludmilla é xingada durante uma premiação. Porém, existem situações menos escancaradas. A jornalista Gabriela Willer percebeu que essa questão também afetava os seus relacionamentos afetivos. Foi aí que surgiu o perfil @SuperaGabi, que já conta com mais de 3 mil seguidores no Instagram. O que começou com uma brincadeira para relatar suas frustrações amorosas, acabou servindo para a própria perceber que ela não era a única mulher que enfrentava esses problemas. Depois de muito estudo, Gabriela percebeu a coincidência que fazia ela e suas seguidoras passarem pela mesma coisa: eram mulheres negras. Nesta terça-feira (12), o Purebreak resolveu falar sobre amor próprio no mês da #ConscienciaNegraPRBK.

Por que você decidiu fazer a página?

"Sempre contei de forma bem humorada para os meus amigos os meus 'fracassos amorosos'. Eu brincava que, com tantos tocos que já levei na vida, eu poderia transformá-los em barquinhos, casa na árvore e etc. Em 2016, decidi criar o Instagram, de forma anônima. Relatava minhas histórias, com muito riso e sem grandes problematizações. Acontece que, com o passar do tempo, comecei a tomar consciência que tinha algo muito errado e busquei respostas sobre minha afetividade. Por que me tratavam tão mal? Será que eu fazia algo errado? Nesse caminho tomei conhecimento sobre feminismo, violência contra mulher e relacionamento abusivo. Passei a buscar formas de autocuidado até chegar a resposta que sofria racismo. Senti a necessidade de buscar mais, aí veio feminismo negro, colorismo, preterimento, solidão da mulher negra. O 'Supera' se transformou em uma rede de apoio emocional e com ele, eu incentivo mulheres a se amarem, alinhando corpo, mente e alma. Aproveito e levo também o recorte de raça nos textos. Partimos da pergunta: 'E aí, o que você faz por você?'. Trilhamos esse caminho de descobertas juntos, entendendo nossas especificidades."

Já percebeu o impacto positivo do seu trabalho na internet na vida de outras pessoas?

"Desde o início aparecem mulheres, e também homens, que dizem ter se identificado com as histórias. Que se emocionaram e que utilizaram o conteúdo do Instagram como motivação diária para superar algum término. Tiveram aqueles que só queriam contar suas histórias amorosas, um momento de desabafo. Já recebi feedback de quem tomou coragem para se declarar e que assumiram namoros. Tiveram os que romperam com relações abusivas e buscaram ajuda na terapia. É sensacional e motivador perceber que suas palavras foram conforto em momentos de caos"

Para você, qual é a importância de ter pessoas negras produzindo conteúdo na internet?

"Observe as mídias de massa. O preto, na maioria das vezes, é representado por uma narrativa escravocrata e de dor. Por muito tempo éramos só os que serviam aos brancos. Falta representatividade. Eu, como jornalista, sei a dificuldade que é para emplacar nossas pautas e levar um conteúdo que nos contemple. Para sermos capa não só quando falamos de questões raciais. A internet nos possibilitou produzir uma pluralidade de conteúdos para nós. Mostrando outra perspectiva, abrindo espaços para falarmos sobre cultura africana, moda, educação financeira, viagens, maternidade, economia, afetividade e negritude. O racismo não nos define, somos mais do que nossas dores."

Muita gente passa pelo processo de se "descobrir negro". Aconteceu com você? Como foi?

"Tive sorte de ter um pai que sempre me ensinou que eu era uma mulher negra, mas nunca aprofundamos as discussões. Por ser negra da pele clara - o racismo se manifesta de forma diferente de para um negro retinto -, demorei para entender o peso do racismo. Entre 2017 e 2018 passei por um preterimento. Meu primo, já sem saber como lidar com o meu sofrimento, disse: 'Prima, ele não quer namorar porque você é negra. Logo mais ele assume uma branca'. Aconteceu exatamente assim. Doeu muito, foi como levar um soco no estômago e faltar o ar. Desde então, tudo mudou. Busquei referências, passei a estudar autores negros, inclusive, me lembro de ver muitos vídeos da Gabi Oliveira e Nataly Neri. Minha percepção de mundo hoje é atravessada pelo recorte de raça, além de gênero e classe. Com isso, pude compreender outras questões da minha vida, não só afetivas sexuais, e de certa forma me proteger do impacto das situações."

O que representa o Dia da Consciência Negra pra você?

"O dia de celebração é a oportunidade de contar e reconhecer a importância da nossa história, da cultura africana, que por anos foi ocultada e criminalizada. A data é resultado de muita luta dos nossos ancestrais. Estamos vivos, resistimos e persistimos para contar nossa versão sobre nós mesmos. É pelos negros quem já viveram, vivem e viverão nessa sociedade."

Hoje em dia é possível perceber que os jovens negros estão assumindo sua negritude mais cedo. Sabemos que ainda não vivemos em um ambiente ideal onde todos conseguem se sentir confortáveis na própria pele. Na sua opinião, o que ainda precisa melhorar?

"Nós somos maioria e lideramos nas estatísticas da população que mais morre anualmente. As mulheres negras são a maioria em situação de rua, sem moradia. Todos os dias temos que ser resistência porque branco não quer que ocupemos os espaços sociais. Por muitos, estaríamos na senzala, servindo seus caprichos e tomando chibatada até hoje. Você não consegue ir ao shopping sem ser perseguido porque, para eles, preto é bandido e não cliente. Ignoram nossas conquistas, tentam nos desumanizar com xingamentos. Este ano, quantas histórias de mortes de negros divulgadas já tivemos? Talvez seja difícil lembrar os nomes, foram tantos. Naturalizam a violência e banalizam nossas vidas. O racismo é estrutural e um problema do branco. Ele que precisa abrir mão de seus privilégios, se conscientizar, nos respeitar e aceitar que estamos vivendo em sociedade junto com eles, nos mesmos espaços. É importante reconhecer nossas vitórias, para não desanimar. Aos poucos estão ocorrendo mudanças, fruto da nossa luta. Se antes negro não entrava na universidade, hoje questionamos o sistema e como nos tratam lá de dentro. É uma vitória, mas é preciso mudar ainda mais esse cenário desigual."

Como você acha que o racismo afeta as relações afetivas?

"O amor é uma construção social, ele perpassa por questões de classe, raça e gênero. Eu demorei para aceitar que as pessoas possuem características, mesmo que inconscientes, de quem é o ideal para manter um relacionamento. Quando você conversa com uma mulher negra, fica nítido as narrativas parecidas de preterimentos e a ausência de se sentirem amadas até quando estão em relacionamentos assumidos. O primeiro beijo, namoro e início das relações sexuais consideradas tardias. É o racismo agindo de forma que classifiquem quem foi feita para casar e assumir para a família, e quem só serve para satisfação sexual é constantemente escondida. Em relações inter-raciais é preciso que o branco entenda que seu parceiro passa por questões de inseguranças e traumas. É preciso compreender, apoiar e ficar ciente do que irá afetá-lo também. Ele está disposto?"

Por que você acha que é importante falar sobre a saúde mental da população negra, principalmente das mulheres?

"O racismo nos faz questionar quem somos. Em primeira instância acreditamos fielmente que o erro está em nós por conta da ausência de afeto, solidão e pelas situações constrangedoras que muitas vezes passamos. Por não enxergarmos beleza em nossos traços e reproduzirmos a síndrome do impostor, nos sentimos inferiores e incapazes intelectualmente. A terapia nos auxilia a perceber que é um problema do sistema de relações sociais e que nada diz a respeito sobre nós. Isso traz uma sensação de alívio e emancipação, além de fazer com que a gente perceba que muitas dessas narrativas não são individuais. Nós mulheres negras, estamos na base da pirâmide social. Sofremos não só com o machismo, mas também com o racismo. Cuidar da saúde mental é fundamental. É preciso perceber que não precisamos ser fortes o tempo inteiro e que não existe isso de suportar tudo sozinha."

Como vocês acha que as mulheres negras podem trabalhar na construção da própria autoestima?

"O autoconhecimento é a principal ferramenta. Entender suas especificidades como mulher negra na sociedade e compreender que autoestima está interligada a vários fatores, não só estéticos. É também se nutrir de estudos, buscar evolução no trabalho, estar com quem te faz se sentir amada - e digo em todas as relações, sejam elas afetivas sexuais, familiares ou entre amigos. É cuidar da saúde física, equilibrar alimentação com exercícios físicos. Além da nossa saúde mental. Com isso, acredito que viveremos melhor e com menos probabilidade de cair em relações abusivas e preterimento. A autoestima faz a gente se reconhecer como merecedor de amor e não aceitar migalhas afetivas que mais nos destrói do que faz bem."

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