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Síndrome de Asperger: o que é? O Desculpa o Textão fez uma entrevista muito legal e necessária sobre o assunto
Síndrome de Asperger: o que é? O Desculpa o Textão fez uma entrevista muito legal e necessária sobre o assunto
Se você já viu "The Big Bang Theory" ou "Atypical", sabe o que é uma pessoa com Síndrome de Asperger. No entanto, uma série de televisão não é o suficiente para entender sobre uma questão que, apesar de leve, precisa ser discutida. Então, se você quer saber mais sobre esse assunto, vem com o Purebreak que a gente vai falar sobre esse assunto.

De nome, talvez você não saiba muito bem o que é a Síndrome de Asperger. Porém, se já assistiu "The Big Bang Theory" ou acompanhou a temporada "Malhação - Viva a Diferença", viu personagens com essa condição. Sim, estamos falando de Sheldon Cooper (Jim Parsons) e Benê (Daphne Bozaski). "Para quem não sabe, a Síndrome de Asperger é uma Condição do Espectro do Autismo de Nível 1, popularmente conhecida como autismo leve. Mas, apesar de não ser uma questão grave, é um assunto que precisa ser discutido. Para o Desculpa o Textão desta quinta-feira (31), o Purebreak entrevistou Robson Fernando de Souza, dono do blog Consciência Autista, para falar sobre o assunto.

Antes de mais nada é preciso dizer que a Síndrome de Asperger não é uma doença. Portanto, não tem cura. Aspies (pessoas com Asperger) são bem inteligentes e geralmente não apresentam dificuldade de aprendizado, diferentemente do que acontece com outros autistas. No entanto, possuem questões mais específicas. Não há problemas com a fala, mas para eles pode ser mais complicado processar e entender a linguagem. É como se eles vissem o mundo de outra forma, sabe? Entender, por exemplo, uma piada ou compreender um tom de voz não é tão simples. Contudo, com o apoio adequado, pessoas com Síndrome de Asperger não precisam se sentir diferentes ou excluídas.

Apesar de ser uma condição com a qual as pessoas nascem, como é perceber, em um determinado momento, que você possui uma Síndrome que te coloca em um lugar "diferente" das outras pessoas?

Eu tenho essa percepção apenas desde 2017, quando minha namorada me falou que identificou diversos comportamentos e traços de personalidade meus com o Asperger. Tal percepção me fez descobrir por que, ao longo de três décadas inteiras da minha vida, eu fui sujeitado a tanta discriminação, tantas repreensões contra meus comportamentos, tantos olhares tortos, tanta rejeição. Nesse contexto, estar num lugar diferente não é, intrinsecamente falando, um problema. O verdadeiro problema é as pessoas, ou por ignorância, ou por maldade, ou pelas duas coisas combinadas, serem preconceituosas e relutarem em nos aceitar e nos acolher do jeito que somos. E quanto à adolescência, eu infelizmente não sabia que sou autista. Só fui descobrir isso aos 30 anos. Mas já na adolescência eu sofri bastante preconceito e até bullying em função de ser quem sou. Eu não me percebia como realmente diferente, mas sofria toda uma discriminação por ser esse diferente que eu não sabia que era/sou.

Como você acha que as escolas podem trabalhar melhor a inclusão de alunos com Síndrome de Asperger?

O primeiro passo é abolirem a atitude abominável e criminosa de rejeitarem a matrícula de alunos autistas, e também acabarem com práticas discriminatórias, igualmente vergonhosas, como excluir alunos autistas de eventos como viagens e festas. O segundo é promoverem conscientização, além de capacitação de todo o corpo gestor, dos professores e dos funcionários administrativos, sobre a neurodivergência autista/aspie a partir do modelo social do autismo, aquele que realmente considera os autistas pessoas integralmente dignas que não precisam nem devem ser "curadas" ou "consertadas", mas sim aceitas e incluídas do jeitinho que são.
O terceiro é impor tolerância zero ao bullying, uma das violências mais comuns a afligir os autistas - o que deveria ser óbvio, mas, considerando o tanto de escolas por aí que acobertam essa prática violenta e não combatem o capacitismo, infelizmente não é tanto assim. Aliás, que fique claro que também existem professores bullies, que maltratam seus alunos autistas/aspies, e eles também devem ser responsabilizados e, a depender do caso, demitidos.

O que você acha da representação de pessoas com Autismo e Síndrome de Asperger em séries, filmes e novelas? E qual seria o cenário ideal de representatividade?

Ao meu ver, essa representatividade tem sido cada vez mais positiva, vide personagens como Benê de "Malhação: Viva a Diferença"; Sheldon Cooper de "The Big Bang Theory"; Sam Gardner de "Atyptical"; Shaun Murphy de "The Good Doctor" e, provavelmente, Newt Scamander da série "Animais Fantásticos".
Quanto ao cenário ideal de representatividade, seria um em que houvesse bastante diversidade entre os personagens autistas, incluindo mulheres, pessoas negras, LGBTs, autistas com deficiências múltiplas, afrorreligiosos, muçulmanos, africanos, ameríndios, asiáticos, idosos etc. Além de diversidade de perfis autísticos - autistas que conseguem falar bem em público, que não conseguem... E também importante, filmes, novelas e séries que tenham dois ou mais personagens autistas. Outra coisa que muito positiva seria colocar personagens autistas de nível 2 ou 3 como pessoas que buscam a felicidade à sua própria maneira e não querem ser "curadas do autismo". Que sejam retratados como personagens íntegros e fortes. Ah sim, e sobretudo, além de personagens autistas, é mais que necessário que haja cada vez mais atores e atrizes autistas.

O que pessoas que não possuem a Síndrome de Asperger precisam ter em mente quando forem se relacionar (seja amizade ou namoro) com pessoas que possuem a condição?

Primeiro, que nossos comportamentos considerados "arrogantes", "grosseiros", "sem noção", "mal educados", "pedantes" ou "desconfiáveis" são, na verdade, deficiências nossas na compreensão e uso de linguagem não verbal, na percepção de normas sociais implícitas e na socialização. Não têm absolutamente nada a ver com falta de caráter ou de noção, ao contrário do que muita gente que nada sabe sobre a Síndrome de Asperger atribui a nós. Segundo, que é antiético nos tratar com repreensão e coerção em função desses nossos comportamentos. Precisamos de compreensão, empatia, aceitação e inclusão, não de sermos esculachados e pressionados a agir como se pudéssemos nos converter em neurotípicos. Terceiro, que abandonem para sempre qualquer forma de zoação capacitista. Nos chamar de apelidos depreciativos por sermos quem somos é semelhante a fazer zombaria misógina com uma amiga mulher ou "brincadeiras" racistas com um amigo negro.
Quarto, que leiam sobre como nós aspies nos comportamos e o porquê desse comportamento. E que tenham muita curiosidade sobre nosso jeito de ser. Que evitem achismos sobre como nos comportamos e manifestamos nossos sentimentos.

O que você gostaria que as pessoas soubessem sobre a síndrome de asperger e o que é viver com essa condição?

A Síndrome de Asperger não é uma doença, nem uma perturbação neurológica. Mas sim um jeito de ser mesclado com deficiências na linguagem não verbal, na socialização, na comunicação, no processamento sensorial etc. E como pessoas com deficiência dotadas desse jeito de ser diferente, queremos ser aceitas, respeitadas e incluídas do jeito que somos. Não queremos ser "consertadas" nem "curadas", tampouco ser tratadas com capacitismo. Um indício, aliás, de que essa condição não pode ser considerada uma doença é que ela nos proporciona diversas características positivas, algo que nenhuma doença é capaz de proporcionar. Nós somos pessoas sinceras, honestas, muito inteligentes naquilo que gostamos, leais, avessas a hábitos sociais nada bacanas (como joguinhos psicológicos, dramas emocionais, manipulação de outras pessoas, fofocas), muito apaixonados por aquilo que gostamos de fazer e etc. Muito provavelmente um aspie é ou será o melhor amigo ou namorado da vida de uma pessoa. Não é à toa que, se o espectro autista não existisse, a humanidade não teria tantos cérebros brilhantes.


Além do mais, se nós temos uma vida com uma qualidade menor do que gostaríamos, não é por causa da nossa neurodivergência. Mas sim por causa da forma preconceituosa, patologizante e excludente como a maioria dos neurotípicos nos vê e nos trata. Ou seja, se nós temos crises, não é porque somos "doentes" feito muitos acreditam, mas sim porque a sociedade pensa quase que somente nos neurotípicos e não nos reconhece como pessoas que possuem algumas necessidades diferentes das deles. As cidades, as ocasiões sociais, as escolas em sua maioria, as convenções sociais dos neurotípicos etc. não foram pensadas nos levando em consideração.

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